Igreja do Bom Jesus da Cruz


BARCELOS (Portugal): Igreja do Bom Jesus da Cruz.

A igreja do Senhor da Cruz é um dos principais templos da cidade e aquele que levou a uma reformulação integral dos eixos de circulação, dentro do burgo, e dos próprios caminhos que partiam para Norte. A sua construção original remonta aos inícios do século XVI, na sequência de um milagre ocorrido em 1504. Nesse ano, conta a lenda que apareceu uma cruz, "de terra bem negra, no chão barrento do Campo da Feira, numa sexta-feira de Dezembro" (ALMEIDA, 1990, p.21).
A partir deste momento, instituiu-se, em Barcelos, uma das principais devoções do Minho, que chegou até aos nossos dias. Os anos seguintes ao milagre assinalam um enorme crescendo religioso, crença que está na origem de um primitivo cruzeiro aí construído e de uma singela capela. Em boa verdade, a devoção ao Bom Senhor da Cruz é uma das marcas mais importantes do percurso religioso do século XVI, ligado à Devotio Moderna e à influência flamenga do Portugal manuelino. Isto mesmo se testemunha na grandiosa imagem do Senhor da Cruz, actualmente exposta num retábulo barroco do interior, e que data dos inícios do século XVI, sendo uma obra importada do Norte da Europa.
O templo que hoje podemos observar nada tem de quinhentista. A sua construção data do século XVIII e é, seguramente, uma obra de referência da arquitectura barroca nacional. Em 1698, deu-se o início do processo, com o envolvimento do arcebispo de Braga, D. João de Sousa. Três anos depois, o projecto do arquitecto João Antunes ganhava este concurso e dava-se início à construção.
João Antunes foi o mais prestigiado arquitecto nacional ao seu tempo, a ele se ficando a dever a notável obra da igreja de Santa Engrácia, de Lisboa. A sua acção prolongou-se desde as décadas finais do século XVII até 1512, data em que aparece documentado, pela última vez. O seu trabalho no Minho está intimamente relacionado com a arquidiocese, trabalhando primeiro na Casa do Tesouro, da Sé de Braga, obra que lhe terá valido o concurso para o Senhor da Cruz de Barcelos. Nesta altura, Antunes é um arquitecto prestigiadíssimo, no auge da sua carreira.
A sua marca de qualidade está bem patente no projecto que concebeu em Barcelos e de que destacamos três aspectos essenciais. O primeiro relaciona-se com o impacto cenográfico da construção. Beneficiando da localização da antiga capela em relação à vila, junto ao Largo da Porta Nova e ao amplo terreiro da Feira de Barcelos, Antunes pôde desenvolver uma obra desafogada e de enorme carácter cenográfico, tão ao gosto do Barroco.
O segundo aspecto a destacar é o eruditismo do projecto, que aqui se alia a uma certa austeridade decorativa. A planta revela uma opção clara pelo plano centralizado, baseado num cículo com dois prolongamentos rectangulares relacionados entre si e ligando axialmente a capela-mor e a entrada principal. No interior, o espaço central, destinado à oração reservada, é protegido das grandes multidões de peregrinos através de um corredor que corre paralelamente às três entradas. A austeridade decorativa tem real expressão no exterior, na sábia alternância de paredes lisas e curvas e na hierarquia das passagens para o interior, com a porta principal sobrepujada por tímpano curvo e as laterais com tímpano triangular.
Finalmente, o interior do templo foi concebido à maneira barroca, como obra de arte total. João Antunes não foi apenas o arquitecto do projecto arquitectónico. A ele se ficou a dever, também, os espaços para os retábulos, os mármores e os azulejos, processo de enriquecimento que decorreu já na década de 20, mas com grande probabilidade seguindo as orientações de Antunes.
PAF
O Chafariz central, com tanque octogonal, pertencia ao claustro do mosteiro de Vilar de Frades. Possui na base da taça inferior águias, que sugerem um dos símbolos de São João Evangelista, o padroeiro dos Loios que ocuparam o Mosteiro de onde provém.

info: www.igespar.pt/pt/patrimonio/pesquisa/geral/patrimonioimo...

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