Capela das Malheiras


VIANA DO CASTELO (Portugal): Capela das Malheiras.

Situada na antiga Rua da Praça das Couves, a Casa Malheiro Reimão é considerada uma das mais significativas construções barrocas da cidade, e da arquitectura civil portuguesa do século XVIII. As suas características permitem inscrevê-la nos modelos habituais da época, com fachada longa, e aberta por uma série bem ritmada de vãos. É, no entanto, a sua capela, que se desloca para fora do eixo do frontispício, e se insere na praça, definindo ainda o início de uma outra rua, que mais se destaca, conferindo a todo o conjunto uma importância urbanística ímpar, onde os valores cenográficos do barroco se encontram bem presentes. Do lado oposto da rua, o fontanário evocativo da história de Viana, complementa e equilibra o efeito da capela, contribuindo para tornar esta artéria um importante testemunho do urbanismo barroco (CALDAS; GOMES, 1990, p. 82).
De acordo com os dados disponíveis, o edifício habitacional começou a ser edificado entre 1753 e 1757, anos em que se procedeu à aquisição dos terrenos. Todavia, Castro Caldas defendeu, recentemente, que a articulação dos quatro corpos da casa - dois habitacionais paralelos entre si, a cozinha e a capela - denuncia a existência de um corpo anterior, modificado pela intervenção de cariz barroco (CALDAS, 2005, p. 179). A capela é ligeiramente mais tardia - a obra foi iniciada em 1758. A longa fachada principal desenvolve-se em comprimento, e divide-se em dois andares, cuja diferenciação é acentuada por um friso que se une aos frontões das janelas inferiores e aos aventais das do andar nobre. As janelas do piso térreo são intercaladas por portas, cujo frontão rompe o friso, ultrapassando a linha divisória dos andares. A distância entre os vãos diminui à medida que se aproxima o eixo central, com a pedra de armas, o qual ganha assim maior destaque, embora tal solução, própria do barroco, implique menor clareza em relação ao espaço interno (IDEM).
No topo, a capela é definida por pilastras de capitéis, muito decorados. A sua fachada, oblíqua em relação à casa, termina num frontão curvo, flanqueado por fogaréus. Ao centro, abre-se o portal, com profusamente decorado, a que se sobrepõe o amplo janelão com moldura de concheados, e ainda uma cartela de ornamentação semelhante. De acordo com João Vieira Caldas e Paulo Varela Gomes (1990, p. 82), os elementos decorativos integram-se no desenho das estruturas, criando uma unidade perfeitamente coerente. Por outro lado, o carácter menos delicado destes ornatos (mais afastados do rococó alemão ou francês), a par do decorativismo do conjunto, torna esta capela um suporte perfeito para receber a luz de Viana do Castelo, para a qual terá sido concebida "no frágil mas exacto ponto entre a violência e a distinção" (CALDAS; GOMES, 1990, p. 82).
Não é conhecido o autor deste conjunto, muito embora a tradição aponte o nome de André Soares como o mais provável e, até mesmo, como o arquitecto nortenho em melhores condições de conceber uma obra desta natureza, em termos arquitectónicos e urbanísticos. Contudo, Robert Smith excluiu a casa dos Malheiro Reimão da listagem de obras atribuídas a Soares e os autores que temos vindo a seguir apontam, como alternativa, o nome de José Álvares de Araújo, discípulo do artista bracarense com quem trabalhou noutras obras, em Viana, contemporâneas da casa da Praça, como é o caso do retábulo do Rosário de São Domingos (SMITH, 1973). A tratar-se de uma obra de André Soares, corresponde à última fase da sua carreira (a partir da década de 1760), em que predomina a depuração e uma maior linearidade (SMITH, 1973, p. 507).
Por sua vez, a fachada do edifício, sóbria e depurada, inscreve-se na tradição arquitectónica seiscentista de Viana, podendo mesmo ser cotejada com a casa da Carreira.
(Rosário Carvalho)

info: www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel...

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